Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial
No Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, é fundamental reafirmar que o enfrentamento ao racismo também passa pela forma como produzimos, legitimamos e aplicamos conhecimento científico.
Sociedade Brasileira de Psicologia
Redação

Evidências acumuladas em revisões sistemáticas, meta-análises e revisões de literatura indicam que a discriminação racial está associada a piores indicadores de saúde mental e física, incluindo maior sofrimento psicológico, sintomas depressivos, ansiedade, estresse e impactos sobre o bem-estar ao longo do desenvolvimento (Paradies et al., 2015; Priest et al., 2013; Schmitt et al., 2014; Williams et al., 2019). Esses achados reforçam que o racismo não deve ser tratado como uma variável periférica ou meramente contextual, mas como um determinante psicossocial relevante das condições de vida, saúde, trabalho e desenvolvimento humano.
Para a pesquisa em Psicologia, combater a discriminação racial exige ir além da inclusão da variável “raça/cor” como dado sociodemográfico. Implica compreender o racismo como estrutura social, institucional e relacional que organiza oportunidades, trajetórias educacionais e profissionais, acesso a direitos, experiências de reconhecimento e exposição a violências. No Brasil, revisões sobre raça, racismo e saúde mental evidenciam tanto os efeitos do racismo sobre o sofrimento psíquico da população negra quanto lacunas persistentes na produção científica nacional (Damasceno & Zanello, 2018; Faro & Pereira, 2011; Tavares & Kuratani, 2019). Estudos publicados em Trends in Psychology também têm contribuído para essa agenda ao demonstrar como o racismo se manifesta em dimensões psicossociais específicas, como preferências estéticas, padrões de beleza, estereótipos e objetificação racializada no contexto brasileiro (Lima, Rodrigues, & Santos, 2022).
Neste 3 de julho, pesquisadoras, pesquisadores, docentes, estudantes, grupos de pesquisa, periódicos e agências de fomento são convocados a fortalecer uma Psicologia comprometida com rigor científico, justiça racial e responsabilidade social. Isso envolve ampliar a diversidade nas equipes e agendas de pesquisa, valorizar epistemologias negras, indígenas, quilombolas e latino-americanas, desenvolver instrumentos de mensuração culturalmente sensíveis, revisar vieses em teorias, amostras e métodos, e produzir evidências capazes de subsidiar políticas públicas, práticas profissionais e intervenções institucionais efetivamente antirracistas.
Referências
Damasceno, M. G., & Zanello, V. M. L. (2018). Saúde mental e racismo contra negros: Produção bibliográfica brasileira dos últimos quinze anos. Psicologia: Ciência e Profissão, 38(3), 450–464. https://doi.org/10.1590/1982-37030003262017
Faro, A., & Pereira, M. E. (2011). Raça, racismo e saúde: A desigualdade social da distribuição do estresse. Estudos de Psicologia (Natal), 16(3), 271–278. https://doi.org/10.1590/S1413-294X2011000300009
Lima, M. E. O., Rodrigues, H. dos S., & Santos, E. V. (2022). Sexual racism in Brazil: Aesthetic preference, beauty models and stereotypes. Trends in Psychology, 30, 480–496. https://doi.org/10.1007/s43076-021-00128-5
Paradies, Y., Ben, J., Denson, N., Elias, A., Priest, N., Pieterse, A., Gupta, A., Kelaher, M., & Gee, G. (2015). Racism as a determinant of health: A systematic review and meta-analysis. PLOS ONE, 10(9), e0138511. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0138511
Priest, N., Paradies, Y., Trenerry, B., Truong, M., Karlsen, S., & Kelly, Y. (2013). A systematic review of studies examining the relationship between reported racism and health and wellbeing for children and young people. Social Science & Medicine, 95, 115–127. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2012.11.031
Schmitt, M. T., Branscombe, N. R., Postmes, T., & Garcia, A. (2014). The consequences of perceived discrimination for psychological well-being: A meta-analytic review. Psychological Bulletin, 140(4), 921–948. https://doi.org/10.1037/a0035754
Tavares, J. S. C., & Kuratani, S. M. A. (2019). Manejo clínico das repercussões do racismo entre mulheres que se “tornaram negras”. Psicologia: Ciência e Profissão, 39, e184764. https://doi.org/10.1590/1982-3703003184764
Williams, D. R., Lawrence, J. A., Davis, B. A., & Vu, C. (2019). Understanding how discrimination can affect health. Health Services Research, 54(S2), 1374–1388. https://doi.org/10.1111/1475-6773.13222
Texto Elaborado pela Profª Drª Ligia Carolina Oliveira-Silva.
Editora-chefe da Trends in Psychology, periódico da SBP.
Professora do Departamento de Psicometria e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRJ.
Psicóloga, mestre e doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações.