Dia Internacional da Mulher: pela resiliência do movimento e pela saúde mental
“Cuidar da saúde mental das mulheres é também cuidar da democracia, da justiça social e do futuro do país”, escrevem Katie Almondes, presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP); e Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Sociedade Brasileira de Psicologia
Redação

Temos avançado mais em consciência do que em velocidade nas reflexões e debates públicos sobre a ocupação de espaços pelas mulheres em diversos segmentos da sociedade. Contudo, essa trajetória ainda é confrontada por barreiras simbólicas, econômicas e políticas, que se manifestam na desigualdade laboral e salarial, na sub-representação em postos de poder, inclusive na ciência, além da persistente violência de gênero, agravada pelas profundas desigualdades de raça e cor que ainda estratificam nossa sociedade.
Temos adotado a bandeira de alerta de que a saúde mental deve ser cuidada ao longo dos 365 dias do ano. A saúde mental das mulheres precisa ser reconhecida como uma prioridade permanente das políticas públicas, não apenas lembrada em datas simbólicas, mas tratada como um compromisso contínuo da sociedade. Neste Dia Internacional da Mulher, como estímulo à resiliência do movimento e à determinação para mudanças, chamamos a atenção para que todas as mulheres tenham sua saúde mental cuidada adequadamente como uma bandeira que flama, em todos os cantos desse Brasil de dimensões continentais.
Essa mobilização tem razões concretas. Os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) exibem que as mulheres têm duas vezes mais chances de sofrer de transtornos de ansiedade e humor. Dados do Relatório Mundial de Saúde Mental: Transformando a Saúde Mental para Todos (OMS) apontam que uma em cada cinco mulheres pode ser afetada por um transtorno mental ao longo da vida, com a depressão sendo a principal condição diagnosticada.
Saúde mental é um termo complexo e multidimensional que engloba o bem-estar cognitivo, emocional, psicossocial. Permite que, diante de estressores, o indivíduo desenvolva mecanismos de enfrentamento resilientes: embora o sofrimento possa existir, ele não compromete de forma incapacitante seus relacionamentos ou suas funções ocupacionais e sociais. Trata-se de um direito humano fundamental e é essencial para o desenvolvimento pessoal, comunitário e socioeconômico. Mesmo a sociedade nos levando a acreditar que a saúde mental é um fenômeno de responsabilidade individual e com risco de super medicalização, ela é, historicamente, estabelecida por normas culturais e atravessada pelo exercício do poder dominante. Uma vez que o poder decisório e simbólico está pouco concentrado nas mulheres, por mais que sejamos mais trabalhadoras na saúde mental, há o permanente risco de invisibilização ou minimização do sofrimento psicológico feminino.
A ciência tem contribuído de forma decisiva para revelar e compreender essas dinâmicas. Pesquisas nas áreas de psicologia, saúde pública, sociologia e economia demonstram que fatores estruturais, como desigualdade de gênero, sobrecarga de trabalho doméstico, violência e precarização laboral, produzem impactos diretos na saúde mental das mulheres. Por isso, enfrentar esse problema exige políticas públicas orientadas por evidências científicas e articuladas entre diferentes áreas, como saúde, educação, assistência social e direitos humanos.
Os quadros de transtornos psiquiátricos repercutem em morbidade, incapacidades, risco de comportamento autodestrutivo e, consequente, mortalidade prematura. Entretanto, devido ao estigma que cerca essas condições, aos recursos frequentemente insuficientes e distribuídos de forma desigual entre os territórios brasileiros, e à falta de profissionais capacitados adequadamente distribuídos na rede de saúde, muitas mulheres enfrentam dificuldades para obter identificação precoce, tratamento adequado e acompanhamento contínuo, transformando-se essa realidade em uma via dolorosa para milhões de brasileiras.
Além das razões, destacam-se ainda as jornadas extensas triplas (envolvendo os afazeres domésticos), sobrecarga do cuidado com gerenciamento doméstico, cuidado com a família e idosos somado à pressão dos afazeres laborais, vulnerabilidade com o corpo (busca da perfeição estética), a maternidade, violência na infância e a falta de acesso aos serviços de saúde e equipamentos protetivos e de segurança.
Diante desse cenário, torna-se fundamental fortalecer lideranças comprometidas com a equidade de gênero nas instituições públicas e na formulação de políticas sociais. Defendemos a articulação de todas as mulheres que ocupam cargos públicos para que, em sua diversidade, atuem como lideranças no debate em torno da saúde mental das mulheres e da equidade de gênero, considerando as vulnerabilidades interseccionais.
No Brasil, iniciativas legislativas vêm sendo discutidas com o objetivo de ampliar políticas de cuidado e prevenção relacionadas à saúde mental das mulheres, com atenção ao fortalecimento do SUS, acolhimento psicossocial e redução da sobrecarga feminina. São projetos que englobam a política nacional de apoio e prevenção à estafa mental ou Burnout relacionados à maternidade (PL 5063/2023), a política nacional de promoção de fatores de proteção da saúde mental das meninas para espaços seguros nas escolas e canais de denúncia para abusos (PL 329/2025).
Precisamos tornar cada vez mais visível esse debate, cobrar celeridade na tramitação desses projetos, acompanhar a implementação das políticas aprovadas em todo território brasileiro e estimular a participação ativa da sociedade, das instituições científicas e dos órgãos responsáveis pela execução dessas políticas públicas.
Somente com o fortalecimento de políticas públicas robustas, com a valorização do Sistema Único de Saúde e com o compromisso coletivo com a equidade de gênero será possível transformar a saúde mental das mulheres de uma urgência silenciosa em uma conquista efetiva de cidadania.
Cuidar da saúde mental das mulheres é também cuidar da democracia, da justiça social e do futuro do país.
Katie Almondes
Presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia – SBP
Francilene Procópio Garcia
Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC
Publicado no JC Noticias da SBPc